“Não tenho palavras para agradecer”, diz Riachão ao ser homenageado pela Mudança do Garcia

Tradicional manifestação da folia é marcada pela irreverência, o deboche, a crítica política, social e de costumes

O sambista, do alto do carro da Mudança, acena para a multidão Foto: Rita Barreto/ Bahiatursa

O sambista Riachão, do alto do carro da Mudança do Garcia, acena para o público  Fotos: Rita Barreto/ Bahiatursa

Uma farra, a tradicional Mudança do Garcia, cumpriu o 84º desfile pelas ruas do tradicional bairro do centro de Salvador, nesta segunda-feira,  até chegar ao Campo Grande, onde começa o Circuito Osmar, homenageando o sambista Riachão. O cantor e compositor Clementino Rodrigues, autor de Cada Macaco no Seu Galho,  aos 92 anos de idade, se mantém como um dos fenômenos da música baiana.

“Não tenho palavras para agradecer, só um lindo Deus pode dar a vocês o que vocês merecem”, disse Riachão pouco antes de subir no trio para cantar com Juliana Ribeiro e Wellington Fera. E foi com Cada Macaco no Seu Galho, seu maior sucesso, que, por volta do meio-dia, a Mudança, uma manifestação patrocinada pela Bahiatursa, saiu do largo do Garcia, passando pela  Rua Prediliano Pitta e Avenida Leovigildo Filgueiras em direção ao ponto de ebulição do Carnaval Baiano.

A irreverência e o deboche, com uma visão ácida dos mais variados fatos sociais, continuam sendo algumas das principais características deste grande bloco sem cordas, que  sai toda segunda-feira de Carnaval.  Da política baiana, nacional e internacional, como a crise na Rússia, à mais corriqueira crônica de costumes  politicamente incorretos ou não, a Mudança do Garcia cobre de tudo um pouco, sem cerimônia.

Multidão acompanha a a manifestação que movimentou o bairro do centro da cidade

Multidão acompanha a  manifestação que movimentou, nesta segunda-feira, o bairro do centro da cidade

APOIO À IRREVERÊNCIA - “O governo apoia artistas e entidades de reconhecido valor, inclusive manifestações irreverentes e de caráter crítico, como a Mudança do Garcia”, diz Fernando Ferrero, presidente da Bahiatursa. Este ano, a Mudança contou com uma luta particular: reconhecido pelo Conselho do Carnaval, o bairro do Garcia está prestes a se tornar oficialmente Circuito Riachão, quando for aprovado projeto de lei que tramita nesse sentido na Câmara Municipal.

“Maridos são bons amantes, principalmente quando estão traindo as mulheres”, dizia uma das inúmeras placas suspensas  pelos participantes da Mudança do Garcia, que se levantam sempre contra o indesejado – “Os corruptos continuam assaltando o erário” -, em defesa dos animais – “Ser humano é ser amigo dos animais” –  e afastam o baixo astral, como o folião Carlos Scorpião que, com um cocar de índio na cabeça, não “tinha um ‘timbau’, mas trouxe um tamborim para espantar os ‘cabocos’”.

O cabeleireiro Alan Lady  protestou contra o abandono da Praça  Castro Alves, “um dos maiores redutos gays que o Carnaval da Bahia já teve”. Bebeto Mato Grosso, de Juazeiro, empresário do ramo de bijuterias que mora em Feira de Santana, exibia um calçolão envolvendo um círculo de ferro, onde se lia: “Faz um ano que procuro a dona”, em homenagem ao cantor pernambucano, morto recentemente, Reginaldo Rossi.

BALEIA E MUSA - O artista plástico Ives Quaglia levou sua baleia, uma escultura gigante feita com material reciclável, direto da tradicional Festa da Baleia, de Itapuã, no sentido de se aliar “à potencialização do carnaval popular”. A  transformista Thállytty Provolone Vog incorporou os tempos atuais fantasiando-se de Musa da Copa. O pernambucano Sabino Demétrio, que curte pela terceira vez a folia em Salvador, este ano  resolveu  fantasiar-se de Dilminha e não poupou elogios ao carnaval: “Perfeito”.

São alguns dos inúmeros exemplos da providencial irreverência da Mudança do Garcia, como a Divina Valéria, atriz e cantora, musa dos carnavais do antigo Bloco do Jacu, que surgiu apressada para se integrar ao carro de som da Mudança, onde ia aquecer para o show que faria, à noite, na Villa da Diversidade (Largo 2 de Julho).

Não faltavam senhoras  sentadas em cadeiras na porta das casa e aqueles que não brincam o carnaval, mas vão apenas para a Mudança, como o professor de  filosofia, ética e cidadania e filosofia do direito da Universidade Católica, George Ocohama, para quem a manifestação é uma demonstração perfeita do carnaval tradicional, que retrata as origens de nossa cidade: “Este bairro, a gente pode chamar de senzala da Bahia”, sintetizou.

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